23 de dez de 2010

Floresta com Araucária, quase extinta - Resta pouco – 1 a 2% – do que um dia foi a maior floresta do sul do Brasil

Resta pouco – 1 a 2% – do que um dia foi a maior floresta do sul do Brasil. Decisões políticas equivocadas, desmatamento desenfreado e completo descaso pela natureza devastaram imensas áreas de uma exuberante vegetação. E muito pouco está sendo feito para reverter essa situação. Livro lançado este mês registra o drama desse ecossistema






Vale a pena repetir. Restaram somente cerca de 1% a 2% da cobertura original da Floresta com Araucária, que, no passado, cobriu grande parte do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul e, ainda, áreas menores na região da Mantiqueira – São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Se não bastasse a percentagem chocante, é mais revoltante ainda descobrir que o estado do Paraná continua sendo, ainda hoje, o maior exportador de araucária do país. Realmente, não faz o menor sentido, principalmente quando se leva em conta que o belíssimo pinheiro do Paraná é um dos símbolos desse estado.
Não é de hoje que a floresta, que abriga essas espécies centenárias, quase milenares, vem sendo maltratada. A história é antiga. Entretanto, é preciso explicar a importância desse bioma para o ecossistema brasileiro.

Até hoje, no mundo todo foram identificadas 41 espécies de árvores da Família Araucariaceae, distribuídas em três gêneros: Agathis, Wollemia e Araucaria. A Araucaria é subdividida em 19 espécies, todas elas encontradas no Hemisfério Sul, incluindo pequenas áreas na Oceania e Austrália. Na América do Sul, existem apenas duas espécies: a Araucária-do-chile, presente no Chile e Argentina, e a Araucária ou Pinheiro-brasileiro, localizado no Brasil e em pequenas manchas no Paraguai e também na Argentina. No Paraná, a Floresta com Araucárias chegou a cobrir 40% da superfície, em Santa Catarina 30% e Rio Grande do Sul 25%. Com seu imponente tronco e a copa voltada para o sol, a araucária levava beleza e biodiversidade para a região.

Acredita-se que a Floresta com Araucária começou a tomar forma no sul do Brasil após a última glaciação do planeta e atingiu o ápice há aproximadamente 2.200 anos. “Essa floresta é uma das formas de vegetação mais antigas do mundo, que são as florestas com coníferas”, explica Mauricio Savi, doutor em engenharia florestal e mestre em conservação da natureza pela Universidade Federal do Paraná. Inicialmente sendo mais predominante na região sudeste do país, com o aumento da umidade no sul, a floresta encontrou as condições perfeitas para se desenvolver plenamente. Uma araucária vive, em média, 700 anos, entretanto algumas podem chegar a mais de mil anos de vida.

Pesquisadores afirmam que a Floresta com Araucária chegou a ocupar aproximadamente 200 mil quilômetros quadrados do chamado Planalto Meridional. Principal espécie desse ecossistema, ela não é a única. Rica em biodiversidade, a floresta é formada por outras centenas de espécies vegetais e animais. Já foram identificadas nela mais de 1.500 espécies botânicas entre herbáceas, arbustivas e arbóreas, além de epífitas, musgos e fungos. “A floresta apresenta uma fauna exuberante, característica do sul do Brasil, podendo-se encontrar tucanos, gaviões, lobos-guarás, codornas, saracuras, emas. Infelizmente com a devastação das florestas, alguns desses animais entraram em extinção”, afirma Savi.

Foi nas primeiras décadas do século XX que a maior floresta do sul do Brasil começou a ser destruída. No Rio Grande do Sul, na divisa com a Argentina e Uruguai, os “coronéis” de estâncias se tornaram bastante fortes politicamente e influenciaram a maneira como a floresta passou a ser vista e tratada. “Impulsionados pelo governo Getúlio Vargas, os gaúchos foram incentivados a ocupar as terras do Paraná e Santa Catarina. Para isso, foram devastando a Floresta com Araucária. Naquela época, o lema era terra boa é terra limpa”, conta o biológo. “Ainda hoje é lei, acredite ou não. A floresta cortada ou dizimada vale mais que a floresta em pé”.

Para trazer abaixo essa vegetação secular foi usado, num primeiro momento, p fogo e, em seguida, o machado. “Foi uma dizimação com apoio governamental”, diz Mauricio Savi. Junto com a floresta, índios e caboclos que moravam perto ou dentro dela também perderam a vida. Foi nessa época também que surgiu a Lumber, a maior madeireira de todos os tempos na América Latina. Localizada no município de Três Barras, em Santa Catarina, a madeireira chegou a exportar um bilhão de metros cúbicos de araucária. Sob os mandos do proprietário, o americano Percival Farquhar, em 40 anos de existência, a Lumber cortou 15 milhões de pinheiros e milhões de outras árvores nativas de grande valor comercial, como as várias espécies de canelas e também a imbuia.

Vergonhosamente, o Brasil se tornou o maior exportador mundial de araucária, utilizada, principalmente durante o período da Segunda Guerra, pela indústria siderúrgica e aeronáutica, já que a madeira brasileira era leve e fácil de ser trabalhada.

Com a derrubada das araucárias, veio a erosão, o empobrecimento do solo, a mudança no clima da região e no regime hídrico, além obviamente, de uma alteração estúpida – em todos os sentidos, da paisagem natural. E é através das lentes de sua máquina fotográfica, que ao longo dos últimos 23 anos, o fotógrafo curitibano Zig Koch vem registrando o fim da floresta que lhe é tão cara. “Passei minha infância viajando por municípios vizinhos de Curitiba, onde havia araucárias belíssimas. Hoje, muitas dessas áreas não existem mais ou viraram áreas agrícolas”, lamenta Koch.

“À beira da extinção, temos pouco tempo e uma última chance de reagir para que esta floresta sobreviva ao século XXI e a araucária – fóssil vivo, que avançou sobre a Terra por 250 milhões de anos – não desapareça...”. É dessa maneira tocante, logo na introdução do livro Araucária – A Floresta do Brasil Meridional – lançado neste mês pela Editora Olhar Brasileiro (Leia a reportagem Floresta Araucária é tema de livro ) – que Zig Koch e a mulher e jornalista, Maria Celeste Corrêa fazem um apelo pela salvação da floresta. Dois apaixonados pela natureza, Zig mostra através de belíssimas imagens a força da araucária, Maria Celeste traça um texto conclusivo sobre a tragédia que se abate sobre esse importante ecossistema do sul do país. “Infelizmente, não é só a floresta que está morrendo. Quando um papagaio voa quilômetros e mais quilômetros para encontrar o alimento que deveria estar na floresta, e não o encontra, ele acaba morrendo porque não tem mais forças para fazer o caminho de volta”, conta a jornalista.

A obra bilíngue (inglês e português) tem 168 páginas e cerca de 175 fotos. “Minhas lentes foram registrando a depauperação da floresta”, constata Koch. Para acompanhar as imagens, Maria Celeste Corrêa fez uma pesquisa intensa durante os últimos 12 anos. Viajou junto com o marido, contou com a colaboração de 14 consultores científicos e leu uma centena de livros para aprender mais sobre a população de índios Kaigang, primeiros habitantes da floresta. Pelas andanças na região, a jornalista se defrontou com depoimentos contundentes de gente humilde, mas nem por isso ignorante. Um deles é do mateiro (nome dado a quem derruba árvores) gaúcho Gerôncio Ferreira, de 70 anos. “Derrubei muito pinheiro com mais de 80 centímetros de diâmetro. Também cortei muita imbuia e canela. Foi o meu serviço a vida inteira. Também vi muito banditismo dos invasores de terras. Tiravam o mate, tocavam fogo por baixo e queimavam tudo. Naquele tempo, a gente não tinha estudo. Não sabia que tudo ia se acabar. Hoje, eu digo: tem gente que não vai conhecer pinhão. Se o governo não mandar plantar o pinheiro nativo, não exigir, isso vai dar problema. Ora, um dia faz 40 graus e no outro cai geada. O que é isso? A natureza está exigindo providência!”, avisa Ferreira.

O livro mostra, ainda, que a extração da madeira, as queimadas, a substituição da flora original pelo plantio de exóticas, a pressão urbana e a ocupação de terras por movimentos sociais são os verdadeiros assassinos da Floresta com Araucária. “Nascentes de água secaram porque a mata foi cortada. E quando uma árvore é derrubada, toda aquela água que ela continha vai para a atmosfera de maneira desequilibrada. É por isso que temos nevascas e tempestades desproporcionais, calor ou frio intensos”, explica Koch. O mateiro, que vive da floresta, e o fotógrafo, que busca a sobrevivência dela, chegam a uma mesma conclusão. É hora de dar um basta.

E o que está sendo feito para reverter essa situação? Infelizmente, muito pouco. Em 2005, o governo federal criou seis áreas de proteção à Floresta com Araucária nos estados do Paraná e Santa Catarina. Até hoje, não houve desapropriações, já que o governo não indenizou as famílias que deveriam deixar essas terras. “O governo é omisso!”, critica Mauricio Savi. E o ambientalista vai mais longe. “São gerações e gerações de famílias destruindo a mata. Primeiro foram os avôs, depois os filhos e agora os netos. Gente que continua derrubando árvores. Muitos políticos estão intimamente ligados a esse negócio e não fazem absolutamente nada para mudar a situação”.

O livro revela: “À exceção das áreas derrubadas com finalidade agrícola, as outras vêm sofrendo o corte seletivo da madeira, no qual são derrubadas apenas as árvores mais frondosas – e que alcançam maior valor no mercado clandestino. As toras são retiradas por estradinhas secundárias, muitas vezes à noite ou nos finais de semana, para tentar driblar a fiscalização”.

O madeireiro não consegue vislumbrar o futuro. Só o hoje, o agora. “Quando ele olha para a árvore, ele pensa no dinheiro que vai pagar a festa de 15 anos da filha”, afirma Maria Celeste. Por isso mesmo, com essas populações, o simples apelo à preservação ambiental não funciona. Nas grandes cidades, mas ainda muito lentamente, as pessoas se tornam mais sensíveis a isso. “Quando cai uma árvore, junto com ela desaparece a memória e a cultura de um povo”, desabafa Savi.

Enquanto a ineficácia das políticas públicas só aumenta a dor da floresta, algumas iniciativas isoladas de organizações não-governamentais tentam minimizar o problema. Um desses exemplos é o do Programa Florar, criado pelo Instituto Agroflorestal Bernardo Hakvoort (IAF), que conta com o apoio ONG The Nature Conservancy (TNC)*. Fazem parte do programa 170 produtores rurais do município paranaense de Turvo, que decidiram investir na exploração sustentável de produtos não madeiráveis.

A beleza das fotos de Zig Koch e o alerta do texto de Maria Celeste Corrêa também foram transformados em uma exposição com 44 paineis. As imagens do fotógrafo foram doadas para a Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) e farão parte de mostra itinerante que a instituição organizará em 2011.

Juntos, jornalista e fotógrafo, marido e mulher, querem se tornar pequenos agentes de mudança. “Temos que usar nosso conhecimento. Queremos que o livro toque as pessoas para que haja uma mudança de comportamento. A gente já destruiu uma floresta, vamos destruir outras? Precisamos dar uma chance à natureza para que ela possa manter nosso planeta vivo”, diz Koch.



*The Nature Conservancy (TNC)





Suzana Camargo – Edição: Mônica Nunes

Planeta Sustentável – 20/12/2010

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