16 de jan de 2011

O Brasil pode crescer sem agredir o ambiente?

Tudo indica que o país crescerá em ritmo chinês nos próximos anos. O desafio é fazer isso sem degradar o meio ambiente, como aconteceu na China



Gabriela Carelli
Epecial Veja Sustentabilidade – 22/12/2010


O Brasil vive um de seus melhores momentos na economia. Este ano que se encerra é o décimo sexto de estabilidade monetária. Desde o milagre econômico, nos anos 70, o país não usufrui de tantos anos de crescimento continuado. Com exceção de 2009, marcado pela retração global, o ritmo de expansão da economia nos últimos três anos foi superior a 5%. A previsão de crescimento em 2010 é de 7,5% — uma aceleração ao estilo chinês.

Dentro desse contexto animador, emerge uma preocupação. É possível manter esse desempenho vigoroso de forma sustentável? Em outras palavras, sem agredir a natureza nem arruinar os recursos naturais do país. O crescimento econômico só tem vantagens. Promove o aumento do emprego, da renda e dá dignidade à vida de um povo. Se o preço a pagar por isso, contudo, for a degradação do ambiente em que vivemos, o prejuízo será duplo: a perda de nossa qualidade de vida e um futuro incerto para as próximas gerações.

A história é pouco animadora no que diz respeito a crescer sem degradar. Desde que o Homohabilis construiu as primeiras ferramentas de pedra, há 2 milhões de anos, a ordem natural foi submetida à vontade humana. A rigor, não há produção sem destruição. Nos ultimo’s 8 000 anos, com a invenção da agricultura e das cidades, o impacto do homem na natureza tornou-se significativo. Com o início da revolução Industrial, há dois séculos, nossa capacidade de extrair recursos naturais aumentou a ponto de desfigurar a face do planeta. os países desenvolvidos são exemplos recentes dessa logística. A Europa detinha 7% das florestas do planeta e hoje conta com mísero 0,1%. Nos Estados Unidos, quase não há mais terras disponíveis para produzir alimentos.

A China amarga as consequências do crescimento a qualquer custo das últimas décadas. Um terço dos rios e 75% dos lagos do país estão contaminados. Das vinte cidades mais poluídas do mundo, dezesseis são chinesas. mais de 750 000 pessoas morrem por ano em decorrência da água e do ar pútridos no país. As fábricas movidas a carvão criaram vilarejos doentes, nos quais a taxa de tumores malignos é altíssima. A história a ser contada daqui a vinte, trinta anos, que incluirá a experiência brasileira e seu processo de desenvolvimento, pode ser bem diferente. o Brasil entra na sua fase de maior crescimento econômico prolongado em um período sem precedentes de conscientização sobre a necessidade de preservação ambiental. “Hoje o modelo é outro. Parece paradoxal, mas não há mais como crescer sem preservar o meio ambiente ou, pelo menos, sem diminuir o impacto causado pela produção”, diz o economista Americano Jeffrey Sachs. “Ou fazemos essa transição para a sustentabilidade, imposta pela crise global de 2008, que se resume na desaceleração do impacto ambiental, ou estaremos fadados a desaparecer”, conclui.
Os desafios brasileiros para crescer e, ao mesmo tempo, se adequar a esse novo modelo sustentável de mundo são enormes. Será preciso expandir a agropecuária sem desmatar a Amazônia, suplementar a geração de energia, investir bilhões em infraestrutura — desde a básica, como saneamento, até a modernização de portos e aeroportos. Uma das chaves para que tudo isso ocorra de forma sustentável é a inovação tecnológica. “Inovação tecnológica só existe se há aumento do consumo, aumento da produção e da riqueza de um país. Nenhuma nação em frangalhos tem condições de promover a inovação, muito menos sustentabilidade”, diz Maílson da Nóbrega, consultor e ex-ministro da Fazenda. Esse pensamento combina com a teoria da “curva ambiental de Kuznets”, uma adaptação do trabalho do economista Simon Kuznets, ganhador do Nobel de 1971. Proposta pelos economistas da Universidade Princeton Gene Grossman e Alan Krueger, a teoria sustenta que a poluição e os impactos ambientais evoluem nas sociedades industriais seguindo uma curva em forma de “U” invertido, ou seja, a degradação da natureza aumenta durante os estágios iniciais do desenvolvimento de uma nação, mas se estabiliza e começa a decrescer quando o nível de renda e de educação da população aumenta.

No Brasil, poucos setores representam tão bem o poder da inovação quanto o agropecuário. Hoje, é possível dobrar a produção agropecuária sem derrubar uma árvore da Amazônia. De acordo com dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), entre 1996 e 2006 houve uma redução de 10,7% nas áreas de pastagem.

No mesmo período, o rebanho bovino cresceu 12% e a produção de carne, 70%. Em dez anos, a produtividade por hectare da cana-de-açúcar saltou de 49 para 80 toneladas. Com tecnologia adequada, é possível produzir muito mais. Técnicos estimam que a produtividade da soja poderia aumentar 50% só com o uso correto da irrigação. Também graças à inovação, a cana-de-açúcar é o produto agrícola que mais cresce no país. Hoje, os canaviais ocupam 8 milhões de hectares. Para a cana ganhar o Mercado internacional de etanol e se tornar uma alternativa ao petróleo, será necessário aumentar sua produção.

“Isso só pode acontecer sem desmatamento se houver aumento na produtividade e melhoramento genético da cana”, diz o biólogo Fernando Reinach, um dos mais conceituados especialistas brasileiros em tecnologia para o agronegócio. “O problema é que, no Brasil, sai mais barato desmatar do que investir em tecnologia. Isso sem falar na falta de incentivos e nas falhas de nossa legislação”, diz a senadora Kátia Abreu, presidente da CNA. A fronteira agrícola nacional avança a passos largos sobre a Floresta Amazônica. De acordo com a FAO, o país é o que mais desmata no mundo. Entre 2000 e 2009, a participação brasileira no desmatamento mundial au mentou de 18% para 20%. Mais de 2,6 milhões de hectares de floresta foram destruídos no período.
Preservar a Amazônia não é balela de ambientalista. É uma questão de sobrevivência. A Amazônia detém a maior biodiversidade do planeta e o maior e mais diverso estuário do mundo. A rede hidrográfica da região tem um potencial energético de 70 gigawatts, metade do potencial nacional. O fim da floresta mudaria o regime de chuvas em toda a América do Sul, com prejuízos para a agricultura e para a geração de energia — duas coisas de que o Brasil vai precisar muito se quiser crescer. Se os desafios são grandes, as oportunidades também o são. Um estudo do Banco Mundial aponta o Brasil como o provável líder de uma nova economia verde, capaz de reduzir as emissões de gases do efeito estufa em 37% (o equivalente a tirar da rua todos os carros do mundo por um período de três anos) sem comprometer o crescimento, a criação de empregos e o desenvolvimento nas próximas duas décadas. No exterior, a expectativa é que o Brasil contribua de forma contundente para suprir a crescente demanda mundial de alimentos e também para uma solução energética, por meio do etanol. “Só será possível assumir esse papel e competir com outras economias emergentes se houver o dobro de investimentos em infraestrutura”, diz Paulo Resende, coordenador do Núcleo de Infraestrutura e Logística da Fundação Dom Cabral.

Para um crescimento anual de 5% na próxima década, os valores destinados ao segmento deverão girar em torno de 4% do PIB ao ano, ante os 2% destinados atualmente. A China investe 7,3% do PIB e a Tailândia, 15,2%. “De todas as obras, nenhuma é tão importante quanto as de saneamento básico”, diz o economista José Eli da Veiga, da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo. “É inadmissível que a oitava economia do mundo mantenha metade da população sem direito a rede de esgoto. Investir em saneamento é optar por um crescimento de qualidade, pois isso tem um efeito multi- plicador”, avalia.

Fazer tudo de forma correta e sustentável é possível? Os economistas e especialistas em sustentabilidade ouvidos por VEJA para esta reportagem são unânimes em dizer que sim. Há tecnologias de primeira linha para expandir o agronegócio e o setor energético. Ao contrário de outros países, temos a felicidade de dispor de reservas ambientais. Todos eles concordam com a seguinte ponderação: para chegar lá, é preciso mudar de atitude quanto antes. Devido às facilidades que a natureza oferece ao país, governantes, empresários e até mesmo a população tendem a agir de forma inconsequente em relação ao futuro e a adiar a adoção de práticas para preservar o que ainda temos. Para o Brasil crescer com qualidade, é preciso cuidar do que a natureza nos deu de graça.



Fonte:Planeta Sustentável

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